quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Escola Municipal Sampaio Corrêa: muitas lições além da sala de aula

Situada no bairro Senador Camará, na Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro, a Escola Municipal Sampaio Corrêa (ligada à 8ª Coordenadoria Regional de Educação) é tema do emocionante relato do Tutor Rolf Bateman, do Programa Cientistas do Amanhã. Com uma escrita poética, mas calçada na realidade da instituição de ensino que acompanha, Rolf convida-nos a um belo exercício de reflexão, a partir das suas vivências em uma escola pública de qualidade. 

"Entrei na Escola Municipal Sampaio Corrêa pelo grande portão de ferro do estacionamento, numa manhã quente como todas as outras que amanhecem próximo à estação ferroviária em Senador Camará. O cartão de boas-vindas anunciava a tônica do convívio vicinal, estampado no letreiro da oficina de reparos automotivos: “O Crack do arranhão”. Na esquina oposta, além do ferro-velho e da loja de materiais de construção, três homens de chinelos, comendo cachorro-quente, me foram descritos brevemente pela funcionária da subsecretaria, que me acompanhava: 'Não olhe muito, é o movimento'.
A frase tentava sair da minha cabeça tão sinceramente quanto à percepção de alguém que, até então, só enxergava a educação pública por meio dos papéis copiados nos cubículos da xerox na Faculdade de Educação da UFRJ. Até mesmo dentro da rede privada, onde a maior das minhas experiências se esmilinguia nas lembranças do adolescente que passou no vestibular e nunca mais olhou naquela direção, meus conhecimentos se mostravam parcos e totalmente distantes da realidade do 'outro lado da mesa', onde eu agora me encontrava.
Parecia regredir a um dos meus tantos primeiros dias de aula, tentando, ao contrário do que diziam os conselhos da mãe incentivadora, ser o mais incólume e imperceptível dos mosquitos, esgueirando-se pelas paredes, enquanto pedia aos céus para não ser notado. Todos os olhares, por mais desinteressados que fossem, pareciam me avaliar o tempo inteiro, a cada passo que dava. Lembrava dos conselhos dos amigos em relação ao perigo da comunidade, dos alertas a respeito da minha clara cor de pele e olhos, das atenções voltadas à luz interna acesa ao sair da escola e da preferência a ser dada, no trânsito das pequenas ruas, aos porcos, ciclistas e carrinhos de compras. Todo o meu dever me passava nervosamente pela mente: a primeira impressão da direção, o processo de convencimento das professoras para que adotassem o Cientistas do Amanhã, a necessidade de mostrar serviço, a vontade de que tudo ocorresse dentro dos meus estreitos parâmetros do sucesso. Leve e disfarçadamente, aliso o amarrotado do uniforme branco e ajeito o cabelo, respiro fundo e me decepciono com a falta do tempo que acreditei que teria, ao caminhar da saída do carro até a porta da direção. A mulher loira, de enormes olhos azuis, vinha em nossa sentido, ainda no pátio, para me conhecer e apresentar a escola.

Marilda, a diretora, cuja descrição física 'mandou pelo ralo' o receio sugerido pelos colegas, demonstrou a simpatia que me fez envergonhar pelos pensamentos recém-ocorridos. Rodou a escola, sorrindo ao apresentar cada canto, cada professora, e me mostrando o orgulho de quem ajudou a construir aquela pequena faceta desconhecida da educação. Numa salada de mil acontecimentos simultâneos, a escola se mistura entre músicas e letramentos, correrias e livros, recreações e seriedade. E na sala de aula se ouve cantoria na forma de homenagem à professora, outrora zangada: 'Eu preciso de ti, senhor, sou pequeno demais'.
Aos poucos, os nomes e rostos se uniam na minha cabeça, cada um com uma história e uma personalidade diferente. A escola se colocava diante de mim simpática e, ao mesmo tempo, dura, sorridente ao encontrar, e não menos bela ao colocar em xeque a razão que me fazia estar ali, naquele momento. Aquela era a Sampaio Corrêa, erguida sobre o concreto colorido das escolas modernas e do otimismo do trabalhador, repleta de suas reflexões, convicções morais e determinações políticas, com as decisões que, sempre tomadas em grupo, atrasavam os anseios do Tutor ignorante. Aquela era a Sampaio Correa, a minha nova sala de aula de vida.
Exigências feitas e acordos cumpridos, duas formações depois e o “Cientistas” explode na escola, em todas as turmas ao mesmo tempo, enchendo de “minhocas” as cabeças das crianças, enchendo de cobranças o calendário do professor e de orgulho o desempenho da docência. Explode o “Cientistas” na Sampaio Corrêa de Senador Camará, guiado por mulheres guerreiras, que, sim, cumprem as suas ordens, nunca deixando de perguntar e admitindo, paradoxalmente, o julgamento indevido e prematuro:
'Parabéns, a minha aula foi um sucesso'.
A receita não é complexa. Uma vez por mês nos reunimos com tempo suficiente para debruçarmos sobre o livro do professor, assistir a vídeos e conversar sobre as aulas. Relatamos pontos importantes e a comunicação aparece nas conversas de corredor, pelo telefone, por email, por bilhete. O que, antes, era desconfiança, hoje, vira aprendizado. O resto, deixamos que a vontade faz.

E os perigos ainda estão lá fora. Mas eu, aqui, estou totalmente seguro".
Parabéns, Rolf Batman, pela ternura e riqueza de detalhes de seu relato, que muito pode contribuir para o desenvolvimento do Cientistas do Amanhã, já que, além das aulas sugeridas pelo livro do professor, a E.M. Sampaio Corrêa instituiu um caderno de relatos a ser preenchido pelas professoras; mantém um horário mensal de atendimento com o Tutor, cerca de 1 hora e 10 minutos para cada grupo de professoras (divididas pelo ano de escolaridade de seus alunos); estuda, para o ano que vem, a implementação de um programa de monitoria feita pelos alunos mais velhos nas turmas mais novas; e inclui, num mural desenvolvido especialmente para o Cientistas do Amanhã, as novidades, notícias e e-mails enviados pelo Tutor. Tanto as professoras, quanto a direção, encontram-se, dessa forma, mobilizadas para o sucesso do Projeto.
Agora, felicidade sem fim é poder estudar e trabalhar em um lugar no qual as pessoas têm objetivo, meio e fim em comum, lideradas por uma gestora que revela brilho nos olhos quando se relaciona com seus professores e funcionários, as suas crianças, a sua comunidade! Assim, fica mais fácil superar os limites, estimula os sonhos, a cooperação e a transformação de cada um para todos. 

3 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimas palavras, vindas de alguém que assim como nós, contribui para a educação dos nossos meninos e meninas...

Sinvaldo do Nascimento Souza disse...

Como me orgulha, sendo professor da Rede Municipal e morador da Zona Oeste, em Santa Cruz, tomar conhecimento deste trabalho magnífico que vem sendo desenvolvido na Escola Municipal Sampaio Correia, do bairro de Senador Camará que, aliás, homenageia o político cuja base eleitoral ficava no antigo Curato de Santa Cruz,em tempos que o acesso às letras era bastante restrito. Parabéns pelo relato, e meus cumprimentos aos colegas professores da Sampaio Correia e, claro, aos queridos alunos, nossos futuros cientistas.

JORLENE disse...

CIENTISTAS DO AMANHÃ, NOSSA! UM ARMÁRIO AZUL NO FUNDO DA SALA QUE PARECE ASSUSTAR MUITOS PROFESSORES. MA, NÃO A MIM. ADOREI, ANO PASSADO CADA SORRISO DOS MEUS ALUNOS QUE ERAM DO 2°ANO, QUANDO ENSINAVA A UNIDADE AR. CADA AULA UMA LOUCURA DE PERGUNTAS E ENTUSIASMOS, PRINCIPALMENTE QUANDO DISTRIBUIA NO FINAL DAS AULAS ALGUNS BRINQUEDOS QUE FAZIAM PARTE DA AULA, PARA QUE ELES A TORNASSEM PRÁTICAS. E FOI ASSIM DEPOIS EM PLANTAS E HOJE NO 3°ANO NÃO ESTÃO DIFERENTES, MESMO SEM OS BRINQUEDOS, PORÉM TRAZEM A PERGUNTA DA AVÓ, DA MÃE SOBRE A AÇUCENA, DAS MINHOCAS. ACREDITEM AS MÃES INVADIRAM MINHA SALA PARA TIRAREM FOTOS DOS CASULOS E DOS MINHOCÁRIOS LEVADAS PELA CURIOSIDADE. UM BEIJO A TODOS PROFESSORA JORLENE, DA E.M. RAUL FRANCISCO RYFF

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